Casa Triângulo, São Paulo, 27/02/2021 - 04/04/2021

Bronze, Couro, Ouro, sangue - Exposição individual

Bronze, Leather, Gold, blood - Solo show

Texto curatorial de [curatorial text by] Priscyla Gomes

Os materiais que compõem o título e s obras da exposição evidenciam um país historicamente arrasado pelas promessas de progresso e que perpetua, em seu sistema de poder e formação, regimes de violência e autoritarismo. contendo referências históricas e da vida cotidiana, a exposição é ao mesmo tempo um olhar para o passado e para o presente.

The materials that compose the title and works at the exhibition show a country historically devastated by promises of progress and that perpetuates, in its system of power and formation, regimes of violence and authoritarianism. containing historical references and everyday life, the exhibition is both a look at the past and the present.

A grande peleja [The great fight]. Bronze, couro, fibra e pluma [bronze, leather, fiber and feather]. 2019. foto [photo]: Paul Setúbal

Paul Setúbal . Bronze, Couro, Ouro, sangue [Bronze, Leather, Gold, blood] . vista da exposição [exhibition view] . foto [photo]: Filipe Berndt

Paul Setúbal . Bronze, Couro, Ouro, sangue [Bronze, Leather, Gold, blood] . vista da exposição [exhibition view] . foto [photo]: Filipe Berndt

Paul Setúbal . Bronze, Couro, Ouro, sangue [Bronze, Leather, Gold, blood] . vista da exposição [exhibition view] . foto [photo]: Filipe Berndt

Paul Setúbal . Bronze, Couro, Ouro, sangue [Bronze, Leather, Gold, blood] . vista da exposição [exhibition view] . foto [photo]: Filipe Berndt

Paul Setúbal . Bronze, Couro, Ouro, sangue [Bronze, Leather, Gold, blood] . vista da exposição [exhibition view] . foto [photo]: Filipe Berndt

Paul Setúbal . Bronze, Couro, Ouro, sangue [Bronze, Leather, Gold, blood] . vista da exposição [exhibition view] . foto [photo]: Filipe Berndt

Paul Setúbal . Bronze, Couro, Ouro, sangue [Bronze, Leather, Gold, blood] . vista da exposição [exhibition view] . foto [photo]: Filipe Berndt

Priscyla Gomes - Casa Triângulo, São Paulo, 2021

Bronze, Couro, Ouro, sangue

"(…) seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor [...], quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, mulheres, crianças convertidos em pasto de nossa fúria. A mais terrível de nossas heranças é levar conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. É ela que incandesce, ainda hoje, em tanta autoridade brasileira" — Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro. [1]

A imagem do sertanejo, com sua cultura e tradição, há muito é difundida pelos mais diversos gêneros discursivos. Isolados ou fora do alcance do poder do Estado, muitas vezes vítimas de seu aparato policial, o sertanejo foi repetidamente narrado como um andarilho ansiando por transformação, oportunidade e justiça. A gênese do sertanejo confunde-se assim com a formação histórica da sociedade brasileira, marcada, entre outros aspectos, por conflitos violentos vinculados à posse da terra e à expansão e integração do território nacional.

A cultura da criação do gado, intrinsecamente vinculada à figura do sertanejo, nasceu de um avanço gradativo das pastagens no interior do continente. O Centro-Oeste foi um de seus destinos. Recorrentemente lido como um território de passagem e marcado pela migração, a região teve na miscigenação com os indígenas locais a síntese de seu sertanejo. O artista goiano Paul Setúbal, em “Bronze, Couro, Ouro, sangue”, remonta a essa síntese marcada pela violência e pela dominação como um traço mordaz da sociedade brasileira.

A enumeração que dá corpo ao título não é nada fortuita. Há na escolha explícita desses materiais as pistas não só de processos elaborados de fundição, modelagem, desenho, costura e confecção das peças, mas também de índices da formação histórica de uma região que mescla curtas promessas de um desenvolvimentismo a um abandono continuado de uma expressiva camada de sua população.

Setúbal denuncia as contradições regionais em o Conto da Roça (2020), discutindo uma invasão de terras no interior de Goiás após sua desapropriação ilegal. O vídeo evidencia a disputa entre camadas populares pela posse de terras, com planos sucessivos de armas e uma constante apologia à bravura, à honra e à ideia de que a morte do outro possa ser uma forma de atenuar um histórico de injustiças sociais. A arma empunhada como um trunfo permeia muito da noção de força física e masculinidade atrelada ao sertanejo. Esse senso de honra e bravura será a justificativa recorrente que lavará de sangue àquele que se contrapor. Em Sinapses (2015 - 2020) Setúbal mescla, numa alegoria do pensamento, referências usualmente encontradas em manuais de armas de fogo, relógios e traquitanas, como se fosse possível extrair da representação isométrica, a lógica dos aparelhos ideológicos e repressivos. A referência clara aos consagrados estudos davincianos do Renascimento parece nos furtar brevemente da natureza dos materiais e do gotejamento inconfundível das marcas que pontuam toda a tela. Setúbal nos faz, momentaneamente, ver beleza nessa ideologia do extermínio. Nos prega essa peça, para logo desconstruí-la.

As faces da violência sistêmica e, muitas vezes institucionalizada, são exploradas pelo artista numa égide de signos apropriados pelas mais diferentes corporações, das milícias à cavalaria imperial. A grande peleja (2019) é uma síntese de temporalidades distintas na formação da força militar no país. Setúbal realiza uma réplica do capacete da Imperial Guarda de Honra (1822), criada por Dom Pedro I e recriada posteriormente para ser responsável pela segurança do Presidente da República. A peça substitui o dragão original pela figura de um São Jorge aniquilando com sua lança a besta colonial responsável por uma das violências fundadoras, que continua a assombrar nossos cotidianos.

Ademais, a maneira com que Setúbal articula elementos de proveniências mais distintas na construção da sua iconografia sertaneja surpreende pela transversalidade histórica. Ao desavisados, a série Pesares (2020) remete à imagem de um pelotão que guarda falsas relíquias no centro da sala expositiva. Os paramentos de couro de boi, primorosamente cortados pelo artista a partir de moldes de alfaiataria, somam-se a boinas, quepes militares e a alguns itens apropriados de fantasias de carnaval. Setúbal transita entre a alta cultura e o folclore popular, o militarismo e artigos sexuais, com passagem por mitos cristãos, excertos de pinturas de Johann Moritz Rugendas e contos populares.

Para quem adentra à sala, esses corpos que testam os limites da gravidade e dos materiais, com um misto de insustentável leveza, parecem aguardar o instante do aboio, o canto dolente do berrante que promove o lento deslocamento da boiada. A configuração dos corpos e, mais ainda, a ausência deles é uma clara metáfora de uma andança histórica que parece estar dubiamente em trânsito, mas inerte. Uma inércia que ainda no presente admite a violência e o extermínio como forças estruturantes na formação de uma sociedade e que se enraizaram com equívoca e incontestável naturalidade.

 

[1] RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 2000