A grande peleja - Galeria do Lago - Museu da República, Rio de Janeiro, 2022

Isabel Portella

Queria entender do medo e da coragem [...]

O que induz a gente para más ações estranhas

é que a gente está pertinho do que é nosso,

por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!

(Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa)

Houve peleja no céu entre anjos e o dragão. E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, o sedutor do mundo. Ao longo dos séculos, a história se repete para contar de lutas onde os fracos são oprimidos e povos aniquilados. Transmitido através da oralidade, da literatura ou das artes plásticas o dragão adquire significados diferentes, quando mitos e ideais cavaleirescos medievais são assimilados pela cultura popular.


O artista goiano Paul Setúbal coloca em seu trabalho toda a sensibilidade e lucidez necessárias num momento de disputas e batalhas pelo poder. Vai buscar na História elementos e símbolos que falam de liberdade, de independência quando, 200 anos após a Proclamação, ainda lutamos para aniquilar os diversos dragões que nos perseguem. Ainda persiste a mentalidade colonial, a grande herança que sobrevive, preservada por quem interessa o poder. É da cultura popular que o artista resgata a figura de São Jorge, o grande protetor do povo, que com sua lança perfura e faz escorrer o sangue do opressor pela terra. O barro tingido de vermelho é metáfora libertadora, e dominando o dragão, o guerreiro vence a ignorância e a obscuridade. Em sua obra A Grande Peleja, escultura em bronze feita a partir do capacete original da Imperial Guarda de Honra de Dom Pedro I, Setúbal adiciona a imagem de São Jorge matando o dragão, numa luta que amplia sentidos e cria novos significados. O capacete, “deformado” por um golpe de lança, simula outros golpes.


A grande pintura Sinapses, abrangente e capaz de transmitir informações específicas ao espectador, oferece enigmas, fragmentos e engrenagens que nos fazem pensar em como tudo que nos chega pode ser absorvido para desenvolver uma ideia, um pensamento original. Equipamentos de destruição e ossos, sangue, terra e ouro. É a vida que segue num ciclo de ajustes cotidianos, informações e valiosos manuais de uso.


Mas é na série de esculturas Pesares, que Paul Setúbal vai recriar referencias importantes da formação da cultura e da força de um povo. É o sertanejo, que caminha pelo interior em busca de oportunidades e justiça, que desbrava terras com quase nada, transformando e criando, que surge na obra pungente do artista. O homem seguindo adiante, enfrentando a dominação e o autoritarismo, os pesares que a vida oferece.


“As esculturas são construídas a partir de moldes e modelos de objetos de dominação, coerção, alfaiataria e referências históricas. As esculturas carregam uma forte relação humano-animal, no mesmo sentido em que replicamos em nós mesmos, a dominação que exercemos na natureza”, acrescenta Setúbal.

Impossível não sentir na pele, ao ver as obras de Paul Setúbal, a batalha travada entre o homem, a natureza e o poder na construção de uma identidade cultural. Falamos aqui sobre economia, desenvolvimento, sustentabilidade e Arte. Falamos de independência num ano de comemorações e Arte. Pensamos em transformações, em terra vermelha de tanto sangue, em barro e ouro e Arte. Imaginamos dragões, santos e proteção nas batalhas e na Arte. Tudo muito natural. Tudo muito a flor da pele.