Confessio. 
Grafite sobre papel. 27 x 20 cm cada. Coleção Particular

Trabalho apresentado no19° Salão Unama de Pequenos Formatos.

 

Paul Setúbal compartilha, em seus desenhos, narrativas reconstruídas a partir da retirada ou mesmo da cópia de imagens e relatos existentes ou esquecidos na história das civilizações, sejam por questões políticas, de poder, ou por descasos. Os desenhos abordam temas específicos da cultura e que interessam ao artista, mas não só ao artista, pois, não estranhamente, parecem também despertar com frequência um estranhamento, curiosidade e certa inquietação nas sociedades que vivemos hoje. Em "Confessio" a representação do corpo do artista se dá diante do que aparenta ser uma luta para se desvencilhar de objetos acoplados/grudados em seu próprio rosto. Estes objetos são máscaras que, em tempos passados, carregavam de modo simbólico o que se acreditava ser características infames de certos animais como asnos, porcos, pássaros, etc. Elas ajudavam a denunciar os atos desprezíveis dessas pessoas que, eram vistas como desonradas. As máscaras são representações de objetos de tortura e intensificam tormentos físicos e espirituais no corpo e alma de quem as usava. A máscara de orelhas longas, por exemplo, representando um asno, tinha o poder de trazer ao corpo, por meio dessas relações simbólicas, atributos de um ser tolo; de uma pessoa ridícula.


 

Glayson Arcanjo, 2013.

Artista e pesquisador.

Aproximações.
Acrílico, nankin e pigmentos sobre papel. 50 x 75. 2011.

Aproximações.
Acrílico, nankin e pigmentos sobre papel. 50 x 75. 2011.

Aproximações.
Acrílico, nankin e pigmentos sobre papel. 50 x 75. 2011.

Novíssimos 2012, Rio de Janeiro.

 

Os trabalhos de Paul Setúbal são parte da sua pesquisa em desenho na qual alia texto e imagem em torno de proposições políticas e sociais. Na apresentação de imagens fragmentadas, o artista visa à construção de um elemento paisagístico. O próprio texto, que, em séries mais antigas, aparecia com grande legibilidade, em letras moduladas e em estrutura rígida, agora, aparece como parte da formação fluida das imagens, mas sem deixar de questionar a própria imagem. Os resquícios de figuras, que reconhecemos por suas características formais básicas, nos trazem algo à memória, porém, pelo seu relevante e característico grau de abstração, nos encontramos em muitas lacunas. O que vemos, nesses trabalhos, é fruto de inquietações da sociedade e da vida contemporânea, que visam evidenciar, assim, que as causas políticas e sociais são cíclicas. Em um paralelo imagético de épocas diversas (como a aproximação entre desenhos de Debret da escravidão no Brasil, imagens de torturas medievais e páginas de jornais contemporâneos) o artista intenciona a percepção de que violência, escravidão, tortura e abusos apenas assumem formas diferentes em épocas diferentes.

 

Bernardo Mosqueiro
Curador independente e crítico de arte
Rio de Janeiro, 2012