O nascimento da mão

 

Deus ex machina¹ é a máxima que possui a tecitura do humano. Ela contém toda urdidura do tecido da história da humanidade desde seus primórdios até hoje. Nesta sentença de apenas três palavras estão contidas todas as criações do homem para o homem: o divino, a arte e, a ciência.

 

Engano daqueles que a pensam como de sentido teológico, uma vez que a sua semântica aponta diretamente ao universo telúrico. Acrescentaria que em direção ao centro da Terra. Rumo ao magma, ao fogo, às entranhas minerais da terra, junto ao qual o homem travou seu sentido mais profundo, o de transformar a natureza.

 

Também engano daqueles que pensam que o homem é um ser supremo no mundo por conta da sua racionalidade ou simplesmente por portar um polegar. Tais ideias mostram-se, na prática, equivocadas. Se há algo que garante o domínio da espécie sobre os demais seres, incluindo toda a série de primatas, é nossa capacidade simbólica, a partir da qual a mão ganhou a projeção de utensílio.

E mais, um utensílio de múltiplas funcionalidades: prender para com-preender e em-preender. Talvez sur-preender! Mas que a verdade seja dita: o nascimento da mão, quiçá seja até anterior à essa capacidade manual das “redes de prensões”² para a criação de hiper-realidades e hiper-organismos do fazer do humano.

 

A mão nasce a partir da sua libertação da função locomotiva. No qual mesmo bípedes, era preciso o apoio no dorso nas mãos para o movimento do corpo. Libertar as palmas das mãos e dar a elas o simples sentido do tato, além da função mecânica de prender, representam o que podemos chamar de a grande virada da evolução do homem.

A obra A Catedral³, de Rodin, não é uma catedral propriamente dita. Tampouco uma escultura de uma catedral. Também não se trata de um desenho ou imagem de uma catedral. A ideia da Catedral, para o artista, são de duas mãos esculpidas, cruzadas entre si, como se entre elas houvesse algo invisível, mas de urgente e necessário cuidado. São as mãos do enlace de um casamento de mãos.

Este trabalho tem um sentido importante, pois ao tornar o edifício físico da Catedral, a morada no divido e seu culto, em algo imaterial, Rodin está nos lembrando que os criadores do Deus ex machina somos nós mesmos. Somos os senhores históricos, os donos do tempo e das suas narrativas.

As mãos de Deus é uma frase que não faz o menor sentido. Pensar um demiurgo artesão, como quis Platão é o contrário, é elevar a técnica do artífice ao sagrado. Mas a Mão do Homem⁴, é mais do que isso, é também obra, metalinguagem do fazer, como o filme de 1970, dirigido por Paulo Gil Soares e com fotografia e produção de Thomaz Farkas.

No filme, a história do boi, do homem que trabalha do couro, do couro e da sua utilização para o homem. Não aquele que o fabrica, mas aquele que o compra de quem fabrica. Do desmembramento do animal em pele e carne. Da pele que nos serve e da carne que se descarta. Maquinaria e ardil da mão invisível que menospreza a mão do próprio homem, o trabalho. E da mão que molda a paisagem. O casamento do homem com o bicho e com o mundo. As tramas da vida.

Pois, se de um lado as ciências naturais refletem a vida passada, a techné representa a visão de futuro da construção humana no mundo, coisa realizada diariamente, na vida vivida, no universo prosaico, através e pelas mãos dos homens. A praxis humana, que é o seu presente cotidiano, representa a costura de biografias com a história. E que o homem não cinze no couro do boi.

E, assim, praxis humana realiza vontades arbitrárias ao próprio homem. Sua atenção é dada à leis de mercado e de outras instâncias reificadas. Trata-se de um mundo criado pelo homem no qual o próprio homem deve obediência quase que servil, destituída de alma, elã ou qualquer sentido mais humanitário, que é o de dar as mãos.

No quadro, A Adivinha⁵, de Caravaggio, duas mãos, neste quase entrelaço de A Catedral de Rodin reaparecem. O tema do quadro é a quiromancia, dada pelo título da obra. A quiromancia é uma arte muito antiga que remonta os tempos da Antiguidade na Índia.

A origem mais remota desta arte de prever o futuro no traçado das linhas das mãos nos leva à figura do sábio hindu Valmiki, que teria escrito um livro com 567 estrofes sob o título Os ensinamentos do maharshi Valmiki sobre a quiromancia masculina.

Também é conhecida a anedota que narra que Aristóteles presenteou Alexandre, o Grande, com uma livro sobre quiromancia, encontrado no Templo de Hermes. Gregos, persas e outros povos orientais, eram adeptos da quiromancia. O futuro nas mãos.

 

A mão, na quiromancia, é utilizada para a compreensão dos enredos humanos na trama do mundo. As linhas da mão são o percurso tramado pelo homem no universo. Traços presentes na biografia, no tecido da vida, que deformaram as mãos ou que existem lá em potência. Uma espécie de diagnóstico do ato, que é como a Natureza se dá no presente.

As linhas do destino estão também contidas na figura trípica das Moiras, entidades que fabricavam, teciam e cortavam os fios da vida dos mortais e imortais. Se Cloto as tecia, Láquesis sorteava os fios e Átropos os cortava. Juntas, as três tramavam os destinos de vida e morte.

Adivinhar, conjecturar, filosofar são modos do homem enredar-se pelo caminho do desconhecido. Diversos fios que levam o homem a prescrutar o mistério da vida, sua própria origem. A busca pela árvore do conhecimento, corrente de pensamento fáustico que vivemos desde o mito da nossa própria criação.

Quiçá, a tautologia do próprio mistério não esteja na pergunta, ou nas perguntas que o homem destina a si próprio para a compreensão de seu enredo sobre o mistério da vida. Mas, talvez, na simples ideia de viver e compreender o sentido da vida em sua própria praxis.

Por muito tempo o homem anda a percorrer uma árdua jornada na busca por desvendar os mistérios da vida, da mente, do universo, do futuro. Mas esquece que suas mãos estão atadas ao corpo na simples tarefa de servir ao mundo, tocá-lo e experimentá-lo.

Dar as mãos nesta jornada, tarefa menos ambiciosa e, mais determinada a construir o mundo a partir das próprias mãos, talvez, seja a defesa de uma autocompreensão e da compreensão do outro, daquele para quem se dá as mãos.

Trata-se aqui da escala do sentir, do toque, da estética, do mundo experimentado pelos sentidos, tão esquecidos, tão menosprezados e vencidos pelas tecnologias que nos obrigam a amputar os sentidos, exatamente aqueles que nos fazem homens.

Se há um nó na história do homem, esse foi feito pelas suas próprias invenções, maquinarias, instituições e dogmas. Pois olhando o que está acima ou o que está abaixo, esquecemos de dar as mãos e ficar face-a-face, como quis Apolinaire um dia.

 

Também um dia, que não sei precisar qual, Dora Smék e Paul Setúbal deram as mãos, juntos, criaram o casal. A aliança dourada, imaterial. Juntos, criaram a obra. E juntos fizeram os Opositores em Movimento⁶. Uma série de esculturas em bronze, na qual as mãos dadas do casal estão em tensão. Acorrentadas, presas ao destino.

 

A tensão de opostos contrários e, em eterno movimento é herança do pensamento heraclitiano, pensador pré-socrático, estreante da Era de Ferro. Era no qual homens, antes de da moral, da metafísica e de toda arte que veio depois, ainda não tinham consciência do que seria domar a natureza, quanto menos a si próprios e, ainda assim, o fizeram.

Se há alguma consciência em nós, ela é sentida pela luta que empreendemos em tomar a vida nas mãos, arrebatar o outro, tocar o mundo e segurá-lo como quem segura um ovo. O zelo pelo ovo. As mãos servem ao toque, ao carinho, ao cuidado, ao fraterno. Somente a partir da consciência da existência há de se ter a vaga compreensão de quem somos. E para sentir o outro é preciso ter mãos.

 

Então, a partir do nascimento da mão, há também o nascimento do próprio homem. Faber na sua arte de manejo do bronze. Sapiens na sua arte de significar o metal, seus instrumentos e sua própria realidade inscrita no tempo. “Divino”, na sua arte de fazer com as suas mãos, o mundo invisível que nos torna homens, artesões do imaterial.

 

Lui Tanaka, [apartamento clandestino da arte], outubro de 2022.

¹ Deus ex machina é uma expressão latina, de origem grega, ἀπὸ μηχανῆς θεός (apò mēkhanḗs theós), que pode ser traduzida literalmente como Deus a partir da máquina.

Utilizada para dar soluções à problemas insolúveis, eventos ou artefatos inesperados artificiais introduzidos nas trajédias.

² A rede de prensão é um termo elaborado por Jean Brun na sua obra ‘A Mão e o Espírito’, da Biblioteca de Filosofia Contemporânea, das Edições 70, Rio De Janeiro, 1971.

Também foi utilizado como referencial teórico, “Da Beleza do gesto técnico na pré-história”, de Spphie A. De Beaune, Zazie, Rio de Janeiro, 2022.

³ A Catedral também possui o título de Arco da Aliança, fonte: https://www.musee-rodin.fr/en/musee/collections/oeuvres/cathedral

https://vimeo.com/246487862?embedded=true&source=vimeo_logo&owner=69311988

⁵ A obra esá no Museu Capitólio de Roma, fonte: https://www.lrb.co.uk/the-paper/v27/n07/peter-campbell/at-the-national-gallery

⁶ Fonte: https://www.centralgaleria.com/exposicoes/dora-smek-paul-setubal-opositores