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Monumental - Museu Bispo do Rosario Arte Contemporânea, Rio de Janeiro, 2022

Paul Setúbal e Bispo do Rosario: Monumental

 

Em “Monumental", no Museu Bispo do Rosario Arte Contemporânea, o artista goiano Paul Setúbal debate as ideias de monumentalidade e de heroísmo para tratar da descolonização a partir da escultura icônica de Dom Pedro I, que em 7 de Setembro de 1822, em São Paulo, à beira do Riacho do Ipiranga - hoje um córrego confinado pelas ruas e avenidas ao longo de seu curso na cidade de São Paulo - gritou a plenos pulmões de cima do seu cavalo “Independência ou morte”! Como de fato aconteceu, jamais saberemos, mas o registro da história oficial é a figura “imaginada” e consagrada do imponente príncipe herdeiro do trono de Portugal empunhando virilmente sua espada bradando a autonomia do Brasil em relação à Coroa portuguesa.

A imagem daquele que se tornaria imperador brasileiro, largamente difundida da pintura de Pedro Américo ao monumento de Louis Rochet, onipresente na Praça Tiradentes foi ironicamente invertida numa escultura miniaturizada por Setúbal. É a espada enterrada nesta terra chamada Brasil que o sustenta de cabeça para baixo montado no seu cavalo: é limítrofe e tensionada a possível queda do futuro rei e seu cavalo equilibrados na lâmina fina da espada.

Bispo do Rosario criou muitas vestimentas. Uma delas é um fardão carregado de medalhas e que homenageia um herói imaginário, o próprio artista. O marinheiro que iria salvar o mundo do caos, seu quepe, sua espada e suas bandeiras sinalizadoras “TEMPO BOM", “INSTAVES TEMPO" e “NÃO É TEMPO BOM", junto do capacete de Dom Pedro I, obra de Paul.

É na invertida que Setúbal estabelece um diálogo com a obra de Bispo do Rosario, também questionadora do sistema de imagens baseado na lógica masculina, patriarcal, que insiste em reger a nossa sociedade. Um exercício de distinção entre as imagens do poder e o poder das imagens que narram histórias oficiais. Das leituras e interpretações de ambos emergem uma inconformidade ou a ausência do reconhecimento da legitimidade de imagens impostas como objetos de memória de histórias mal contadas.

Arthur Bispo do Rosario, sobrepondo seu manto sobre os fardões que vestia, fazia ali na sua roupa para conversar com Deus uma espécie de cartografia-síntese de sua obra. Carregava em si estigmas de marginalização social ainda vigentes em nossa sociedade - negro, pobre e louco. Sua forma particular de ver o mundo abriu novas possibilidades para se pensar o fazer artístico, inspirando artistas e fissurando diferentes campos de saber. Com sua obra, promove conexões que se renovam e se atualizam hoje, como esta, pensada por uma rede colaborativa de três curadores da plataforma curatorial Caju: Daniela Name, Jean Carlos Azuos e Thiago Fernandes.

O mBrac, guardião desse precioso acervo público, tem o desafio de se sintonizar o pensamento de Bispo do Rosario com a arte contemporânea, e, assim, expor seu acervo para criação de outros vínculos por meio de práticas que unem educação, arte e saúde. Ao mergulharmos no mundo de Bispo e Paul, somos convocados a experimentar outros modos de vida e outros saberes. Uma demanda de reinvenção que se faz presente principalmente no pós-pandemia, quando todos fomos confrontados com o inimaginável, abalando certezas e convicções. Cada vez mais, então, fazem-se necessárias as vinculações e reverberações, capazes de trazer novas perspectivas para os olhares do público.

Forçados a sair dos trilhos nos últimos anos, temos a possibilidade de, nos próximos, encontrar novas perspectivas diante do caos instaurado anteriormente. Que Bispo nos guie, nesse entrelaçamento de arte e cuidado para criarmos novas maneiras de habitar o mundo e para as relações entre homem, natureza e memória e, assim, delinearmos as mudanças necessárias para produzir novos tempos.

Raquel Fernandes e Ricardo Resende

Diretora e Curador do Museu Bispo do Rosario Arte Contemporânea

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