Sylvia Werneck - EUA / Colômbia, 2019

Revista Artnexus 112

O corpo é a evidência de que estamos no mundo. É nele que se dão os processos que o definem como uma forma de vida – respirar, comer, procriar, e mais tantos detalhes que habitam os intervalos entre as necessidades e constantes fisiológicas. Mas esta é uma explicação puramente biológica, bem aquém da complexidade que é o corpo de uma pessoa imerso na realidade de uma sociedade, de um tempo e de um lugar. Por uma perspectiva filosófica (para escolher apenas uma entre tantas), a ideia de “máquina desejante” proposta por Gilles Deleuze talvez seja uma das mais apropriadas para entender o trabalho de Paul Setúbal. Isto porque, em linhas gerais, coloca o desejo não como a dor causada por algo que está ausente, mas como processo; um ímpeto que não nasce de uma separação entre sujeito e objeto, mas um mover-se que vai de efeito em efeito, ou de afeto em afeto.


O artista, nascido no interior de Goiás e que se divide entre Goiânia, Brasília e São Paulo, explica que tudo o que cria está diretamente relacionado a uma situação que ele vivenciou. As circunstâncias de sua vida nômade lhe proporcionam tangenciamentos únicos entre vida vivida e arte criada – a velocidade frenética de São Paulo, por exemplo, lhe chega como uma exacerbação do contato entre o corpo e a sociedade, enquanto em Brasília as questões do grande poder ficam mais próximas, e em Goiás é o trabalho na terra que se infiltra nos poros. Em todos estes casos, o disparador é sempre uma reação a uma experiência, que Setúbal transforma em uma gravura, um desenho, um objeto ou uma performance, sempre passando pela intermediação do corpo, que funciona como uma câmara de desenvolvimento de respostas. É ali que se dá a parte mais visceral do ato artístico. É através dele que ocorre a transformação de um acontecimento do cotidiano, que às vezes é banal e às vezes brutal, em uma pulsão criadora que devolve ao mundo um fato artístico – não necessariamente redentor, mas decididamente resiliente. O trabalho que emerge do processo é, via de regra, pleno de potencialidades, como se gritasse sua existência.


Integrante do coletivo EmpreZA, um dos mais atuantes grupos de performance do país, Paul Setúbal vem já há algum tempo desenvolvendo, paralelamente, sua trajetória individual. “Corpo Fechado”, na C Galeria, é sua terceira individual, e a primeira no Rio de Janeiro. Com curadoria de Daniela Name, a mostra reúne um conjunto significativo de suas criações, que têm como fator aglutinador o tema do título. “Corpo Fechado” é uma expressão usada nas religiões de matriz africana, amplamente presentes na cultura brasileira, e que descreve uma pessoa que está protegida contra males físicos e espirituais. Mais que mera defesa, o termo carrega também a possibilidade da alegria, da celebração de uma força que ganhou liberdade para ser exercida. 


As referências aos orixás e rituais místicos afro-brasileiros estão presentes em vários trabalhos. A série “Armas para os deuses” traz espadas fundidas em bronze cujas lâminas têm o formato das folhas das plantas chamadas de espada-de-são-jorge e espada-de-santa-bárbara, atribuídas, respectivamente, aos orixás Ogum e Iansã. Por força da repressão às religiões dos africanos escravizados, essas divindades foram sincretizadas para corresponderem, no catolicismo, a São Jorge e a Santa Bárbara. O paradoxo entre a placidez da planta e sua acepção guerreira é ironia que Setúbal usa sabiamente em diversos projetos.


“Compensação por excesso” fala de situações de embate com o poder na esfera da política. Aqui o corpo se mostra como resistência às forças policiais, situação que vem sendo bastante comum no Brasil desde 2013. Trata-se de uma instalação com cassetetes fundidos em bronze, torcidos ou dobrados, e que exibem impressões de partes do corpo do artista, como que moldados em negativo pelo impacto. As deformações destes instrumentos de repressão são testemunhos do enfrentamento, provas de coerção e reação, de que o corpo não se intimidou, mas impôs seu direito de existir e de se opor à ordem vigente. A instalação é complementada pelo vídeo “Por que os joelhos dobram”. Nele, o artista, vestido de vigilante, guarda uma sala vazia, um típico cubo branco. Então começa a golpear as paredes nuas com seu cassetete, insistentemente, criando uma experiência sonora que faz ecoar pelo espaço expositivo o som familiar das pancadas. Para Setúbal, este reconhecimento atesta a capacidade latente que trazemos adormecida, como seres sociais, de ferir o outro, o corpo que não é nosso e que, portanto, pode representar perigo. A violência contra este inimigo invisível prossegue até que o artista chega ao esgotamento, assim como seu instrumento de opressão, que acabou deformado pela resistência muda das paredes.


Paul Setúbal apresenta o corpo como escudo, como casulo e como arauto. Mas não se trata de um corpo único, individualizado. É um corpo coletivo, múltiplo, integrador - um corpo-legião.