36° Panorama da Arte Brasileira - Museu de Arte Moderna, MAM, São Paulo, 2019

Tropeiros

Paul Setúbal

 

Nasci em Aparecida de Goiânia, exatamente a uma rua da capital. Vivi entre Goiânia e o ambiente rural, passei temporadas em Brasília. Essa situação transitória é fundante em meu trabalho. Goiás é extremamente violento. Há uma ofensiva contra o cerrado, os mesmos sobrenomes controlam o poder desde antes da formação do estado. Há uma série de rotas de tráfico de drogas dispersas pelas fazendas e rodovias. Tudo isso faz parte do cotidiano. Do lapso entre a metrópole e o Brasil rural, vejo um país em que cada lugar difere do outro, mas é regido por forças que atuam em uníssono. A truculência, por exemplo, é uma regra em todos esses contextos.

Muitas das referências que trago no trabalho – armas de fogo, instrumentos de coerção – partem de experiências pessoais minhas com a violência institucionalizada. Não me interessa lidar com alguma situação que eu não tenha vivido. O uso de arma de fogo no interior é comum, quase que “uma regra da roça”. Quando criança, eu me lembro de brincar com munição. A arma era usada para a caça e também para a “defesa pessoal”, que muitas vezes se tratava de acerto de contas. Parte do meu trabalho está interessada nas ambiguidades dessas ferramentas, que se tornaram pauta política e social.

Tropeiros (2019), desenvolvido para Sertão, retoma as comitivas que vagavam pelo interior do país (que já era ocupado) tocando o gado, trocando tecnologias e alimentos. O título também faz referência às tropas de choque contemporâneas. Em Goiás e São Paulo, ainda é forte a tradição tropeira como lastro cultural. As festividades partem de um povo que busca rememorar suas tradições, como as comitivas de carro de boi na Festa do Divino Pai Eterno (Trindade, GO) ou nas festas de muladeiros, espalhadas pelo país. Dessas histórias, sobrevive não só a manifestação cultural, mas também o meio de exploração invasora que faz parte do cotidiano do país.


A obra parte de cinco esculturas em bronze suspensas, para as quais usei, como modelo, formas e vetores de alvos. A mim interessa essa reversão do alvo, pois aquele que atira, atira em si próprio, em uma forma humana. As esculturas têm a dimensão de portais por onde o corpo humano poderia passar. Essa medida é importante, pois guarda uma mecânica que o corpo reconhece. Muitos objetos têm a marca da mão gravada. Esse sinal é quase um retorno a um movimento primitivo de transformação das coisas, como o preparo da argila, a pegada firme do martelo ou o trabalho árduo com ferramentas no campo. Muitos objetos parecem ter sido fundidos com o corpo, evidenciando um movimento de reciprocidade entre sujeito e objeto ou humano e animal. Há, na instalação, uma ferramenta em referência a Ogum, cujo domínio é a tecnologia, a transformação da matéria e a guerra.