36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão

Museu de Arte Moderna de São Paulo, MAM, 2019

 

No segundo semestre, entre 17/08 e 15/11, o MAM São Paulo realizará a nova edição do Panorama da Arte Brasileira. “Sertão” é o título e o conceito proposto pela curadora Júlia Rebouças para articular o 36º Panorama, do qual participarão 29 artistas e coletivos, e que tem assistência curatorial de Maria Catarina Duncan. A curadora convidou artistas que se relacionam com o conceito, entendendo a própria arte como “sertão” – em sua instância de experimentação e resistência –, contestando, portanto, o viés restritivamente geográfico facilmente associado à palavra. Sertão é apresentado nesta exposição como um modo de pensar e de agir, que tem a criação artística como um de seus importantes aspectos definidores.

“Não há empreendimento, monumento ou manifestação que consiga simbolizar inteiramente sertão. Há sempre uma condição-sertão que funda outra existência e que não se deixa confinar. Se o imaginário de um certo senso comum trata sertão como vazio, aridez, aspereza ou indigência, a ele confrontam-se as acepções de vitalidade, força, resistência, experimentação e criação, gestadas a partir de uma ordem de saberes e práticas que desafia o projeto colonial em suas reiteradas tentativas de submissão. De forma alusiva, sertão refere-se a um só tempo à arte e ao estado da arte”, explica Júlia.

A necessidade de reelaborar a história brasileira, uma repactuação social, espiritualidade, identidade de gênero, lutas antirracistas e a relação com o meio ambiente são algumas das questões que aparecem nas instalações, fotografias, pinturas, vídeos, esculturas e projetos deste Panorama. Os artistas selecionados estão em início ou meio de carreira, com produções que apontam para territórios especulativos que dão sentido à ideia de sertão, além de artistas com trajetórias mais extensas, que apresentam obras que merecem ser revisitadas à luz dos debates propostos.

Tropeiros. Ouro,bronze, aço, couro e pigmento. Museu de Arte Moderna de São Paulo, MAM, 2019.  Foto: Paul Setúbal

Tropeiros. Ouro,bronze, aço, couro e pigmento. Museu de Arte Moderna de São Paulo, MAM, 2019.  Foto: Paul Setúbal

Nasci em Aparecida de Goiânia, exatamente a uma rua da capital. Vivi entre Goiânia e o ambiente rural, passei temporadas em Brasília. Essa situação transitória é fundante em meu trabalho. Goiás é extremamente violento. Há uma ofensiva contra o cerrado, os mesmos sobrenomes controlam o poder desde antes da formação do estado. Há uma série de rotas de tráfico de drogas dispersas pelas fazendas e rodovias. Tudo isso faz parte do cotidiano. Do lapso entre a metrópole e o Brasil rural, vejo um país em que cada lugar difere do outro, mas é regido por forças que atuam em uníssono. A truculência, por exemplo, é uma regra em todos esses contextos.

Tropeiros. Ouro,bronze, aço, couro e pigmento. Museu de Arte Moderna de São Paulo, MAM, 2019.  Foto: Paul Setúbal

Um segundo conjunto de obras é apresentado sobre uma plataforma que lhes serve de base. A base de metal suspensa acomoda quatro trabalhos (Corpo Fechado, Passante e A balada da primeira queda I e A balada da primeira queda II) organizados de tal forma que remetem a um corpo desmembrado, o torso e os membros separados. Corpo fechado, escultura que dá nome à exposição tem a forma e as dimensões de um escudo tático com a imagem em baixo-relevo de uma figura com o rosto e os braços cruzados em um gesto de proteção. O gesto de fechar os braços para se defender do impacto é como que sacralizado ali gravado, como a prova de um confronto possível em que um corpo foi mais forte que o instrumento desenvolvido para machucá-lo. Aqui é o corpo que machuca o metal.

Muitas das referências que trago no trabalho – armas de fogo, instrumentos de coerção – partem de experiências pessoais minhas com a violência institucionalizada. Não me interessa lidar com alguma situação que eu não tenha vivido. O uso de arma de fogo no interior é comum, quase que “uma regra da roça”. Quando criança, eu me lembro de brincar com munição. A arma era usada para a caça e também para a “defesa pessoal”, que muitas vezes se tratava de acerto de contas. Parte do meu trabalho está interessada nas ambiguidades dessas ferramentas, que se tornaram pauta política e social.

Tropeiros. Ouro,bronze, aço, couro e pigmento. Museu de Arte Moderna de São Paulo, MAM, 2019.  Foto: Paul Setúbal

Tropeiros (2019), desenvolvido para Sertão, retoma as comitivas que vagavam pelo interior do país (que já era ocupado) tocando o gado, trocando tecnologias e alimentos. O título também faz referência às tropas de choque contemporâneas. Em Goiás e São Paulo, ainda é forte a tradição tropeira como lastro cultural. As festividades partem de um povo que busca rememorar suas tradições, como as comitivas de carro de boi na Festa do Divino Pai Eterno (Trindade, GO) ou nas festas de muladeiros, espalhadas pelo país. Dessas histórias, sobrevive não só a manifestação cultural, mas também o meio de exploração invasora que faz parte do cotidiano do país.
A obra parte de cinco esculturas em bronze suspensas, para as quais usei, como modelo, formas e vetores de alvos. A mim interessa essa reversão do alvo, pois aquele que atira, atira em si próprio, em uma forma humana. As esculturas têm a dimensão de portais por onde o corpo humano poderia passar. Essa medida é importante, pois guarda uma mecânica que o corpo reconhece. Muitos objetos têm a marca da mão gravada. Esse sinal é quase um retorno a um movimento primitivo de transformação das coisas, como o preparo da argila, a pegada firme do martelo ou o trabalho árduo com ferramentas no campo. Muitos objetos parecem ter sido fundidos com o corpo, evidenciando um movimento de reciprocidade entre sujeito e objeto ou humano e animal. Há, na instalação, uma ferramenta em referência a Ogum, cujo domínio é a tecnologia, a transformação da matéria e a guerra.

Tropeiros. Ouro,bronze, aço, couro e pigmento. Museu de Arte Moderna de São Paulo, MAM, 2019.  Foto: Paul Setúbal